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quarta-feira, 31 de março de 2010

Amor nos tempos da Páscoa


Eu amo chocolate. Adoro. Venero. Se aparecesse uma fada madrinha na minha frente e me concedesse qualquer desejo no mundo, eu pediria para ela retirar, com sua varinha mágica, todas as calorias de todos os chocolates - sem alterar o sabor. Nada na vida me faria mais feliz! E se pudesse - sem prejuízos para minha saúde - trocaria café-da-manhã, almoço e jantar por barras de chocolate e caixas de bombom.
Pois bem, para pessoas como eu (e eu arriscaria incluir nesse grupo ao menos 90% das mulheres na faixa dos 30. E dos 40, dos 50, dos 60, dos 70, dos 80, dos 90 e dos 1000), chocólatras assumidas, viciadas no prazer que derrete sobre a língua e é proporcionado pela mistura mágica de cacau, leite e açúcar, essa é uma época conflitante do ano. A Páscoa. Momento de uma intensa alegria e ao mesmo tempo um proporcional peso na consciência. Sim, porque essas mulheres - me incluo, obviamente - provavelmente passam o ano lutando contra a balança, fazendo exercícios em aparelhos que mais parecem ter sido criados por um torturador (falarei disso em outro post, aguardem). E aí? E aí que chega a Páscoa e uma dúvida nos dilacera: é possível se entregar aos prazeres do chocolate ou temos que, mais uma vez, controlar nossa vontade, nosso desejo por aquela textura lisinha se desfazendo lentamente no calor morninho da boca? Porque nada (eu disse NADA) na vida se compara a essa alegria. E não me venha com pizzas, cervejas, churrasco, pães e queijos. Porque para um verdadeiro chocólatra nada disso interessa. Nós, literalmente, só pensamos naquilo. Falando nisso, me deu água na boca. Acho que vou comer só um quadradinho...rs

terça-feira, 30 de março de 2010

Cerejeiras em flor




Pena que é lá no Japão, tão looonge da gente. E pena também que dura apenas duas semanas, mas as cerejeiras estão em flor. E os japoneses, sábios que são, aprenderam com esse fato uma lição: toda a beleza é efêmera e deve ser apreciada enquanto existe. Lindo, né?

sexta-feira, 26 de março de 2010

Estranho conhecido


Como é possível alguém que nunca conhecemos pessoalmente ter um papel tão importante em nossas vidas? São pessoas que têm um papel em nossa formação e até, ouso dizer, no nosso caráter. Pessoas que falam o que gostaríamos de falar, expressam exatamente o que pensamos, mas não conseguimos colocar em palavras. Uma dessas pessoas marcantes na minha vida - e na de muita gente que viveu intensamente os 80's - foi Renato Russo. Essa semana ele completaria 50 anos se estivesse vivo, e voltou à minha lembrança. Penso nele com o mesmo carinho que me lembro das melhores amigas - aquelas, que a gente nem desgrudava para tomar banho (rs) - das primeiras festinhas da escola e de toda a doce loucura que vem junto com a adolescência: uma ponta de rebeldia, um toque de nostalgia da infância, um bom tanto de amor insano, doses de boa música ouvida no máximo volume... Afinal, quem mais além dele, entenderia que quando se é adolescente (e eu acredito que essa máxima vale em qualquer fase da vida, até hoje) "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã"? E quem não desejou "ao menos uma vez, provar que quem tem mais do que precisa ter quase sempre se convence que não tem o bastante e fala demais, por não ter nada a dizer"? Duvido que nunca tenha passado pela sua cabeça a frase "parece cocaína, mas é só tristeza". E uma das frases mais verdadeiras do mundo: "Sempre precisei de um pouco de atenção. Acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto". Não vou nem entrar no mérito de que as composições de RR estão mais atuais do que nunca, como "Que país é esse?" e "Geração coca-cola", porque esse não é o intuito desse post. Tudo o que eu quero aqui é mostrar - não sem um perfume de nostalgia - que sem ele eu não seria a pessoa que sou hoje. E não é exagero dizer isso.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Da cólera


"População vaia advogado de Alexandre Nardoni e Ana Jatobá". "Aos gritos de 'assassinos', eles passam correndo com uma grande escolta policial". Cometeram um crime horroroso, sem dúvida, diante do qual ninguém fica impassível. Mas será justo (com perdão do trocadilho) um pré-julgamento tão cruel por parte de absolutamente TODOS, em que há verdadeiros motivos para se temer um linchamento? Qual a diferença entre matar uma pessoa e matar uma pessoa? Tema polêmico, resposta profunda. Retirada da belíssima Oração aos Moços, de Rui Barbosa. Em transcrição literal:

Dela (da cólera) esfuzilam centelhas, em que se abrasa, por vezes, o apóstolo, o sacerdote, o pai, o amigo, o orador, o magistrado. Essas faúlhas da substância divina atravessam o púlpito, a cátedra, a tribuna, o rosto, a imprensa, quando se debatem, ante o país, ou o mundo, as grandes causas humanas, as grandes causas nacionais, as grandes causas populares, as grandes causas sociais, as grandes causas da consciência religiosa. Então a palavra se eletriza, brame, lampeja, atroa, fulmina. Descargas sobre descargas rasgam o ar, incendeiam o horizonte, cruzam em raios o espaço. É a hora das responsabilidades, a hora da conta e do castigo, a hora das apóstrofes, imprecações e anátemas, quando a voz do homem reboa como o canhão, a arena dos combates da eloqüência estremece como campo de batalha, e as siderações da verdade, que estala sobre as cabeças dos culpados, revolvem o chão, coberto de vítimas e destroços incruentos, com abalos de terremoto. Ei-la aí a cólera santa! Eis a ira divina!
(...)
A parte da natureza varia ao infinito. Não há, no universo, duas coisas iguais. Muitas se parecem umas às outras. Mas todas entre si diversificam. Os ramos de uma só árvore, as folhas da mesma planta, os traços da polpa de um dedo humano, as gotas do mesmo fluido, os argueiros do mesmo pó, as raias do espectro de um só raio solar ou estelar. Tudo assim, desde os astros, no céu, até os micróbios no sangue, desde as nebulosas no espaço, até aos aljôfares do rocio na relva dos prados.
A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade. O mais são desvarios da inveja, do orgulho, ou da loucura. Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Sorria


A frase "um sorriso abre portas" é pura verdade, na minha opinião. Experimente sorrir (não debochar, nem ser irônico e muito menos fazer pouco dos problemas dos outros), mas sorrir mesmo, com a sinceridade que transborda do coração, nas mais diversas situações. E o sorriso passa a assumir diferentes significados, mesmo que sempre positivos. Por exemplo, quando alguém lhe pede um favor, um sorriso demonstra disponibilidade. Pedir um favor sorrindo mostra que você está apto a retribuir. Chegar a uma entrevista sorrindo mostra que você é receptivo às novidades que serão reveladas ali. Sorrir um sorriso triste quando um amigo desabafa mostra que você o ama. Sorrir ao ver um filme ou escutar uma piada, por mais idiota que pareçam ambos, significa ter senso de humor. Sorrir para um desconhecido pode representar um desafio, mas que certamente será bem recompensado com outro sorriso. Sorrir para uma criança mostra a ela o valor dos pequenos momentos de felicidade. Fazer compras, escrever, falar ao telefone (sim, percebo claramente quando falo com alguém que está sorrindo, e isso me contagia) e tomar banho com um sorriso no rosto são atitudes que mostram que você está de bem com a vida. Sorrir chorando expressa uma emoção muito forte que seu corpo parece não saber demonstrar. Sorrir com a pessoa amada significa fortalecer os laços e, com eles, o amor. Mas são tantos probleminhas - e problemões - no nosso dia-a-dia que muitas vezes a gente esquece a importância do sorrir. É necessário, então, experimentar uma espécie de risoterapia caseira: alugue uma comédia boba, vá a um espetáculo de comédia stand up, procure no MSN aquele seu amigo divertido que sempre tem um vídeo ou um site engraçado para te mostrar, marque um almoço com seu irmão mais novo, alugue Sex in the City com as amigas diante de um pote de brigadeiro de colher, saia para dançar ou vá a um bar com amigos. No mínimo você sairá se sentindo muito mais leve e provavelmente passará a dar aos problemas a dimensão que eles realmente têm.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Gabriel García Marquez




Alguém no mundo tem uma poética descritiva melhor do que este homem?
"O espaço da casa é amplo e luminoso, com arcos de estuque e pisos axadrezados de mosaicos florentinos, e quatro portas envidraçadas sobre uma sacada corrida onde minha mãe sentava-se nas noites de março para cantar árias de amor com suas primas italianas. Dali se vê o parque de San Nicolás com a catedral e a estátua de Cristóvão Colombo, e mais além os armazéns do cais fluvial e o vasto horizonte do rio grande da Magdalena a vinte léguas de seu estuário. A única coisa ingrata na casa é que o sol vai mudando de janelas no transcurso do dia, e é preciso fechar todas elas para tratar de dormir a sesta na penumbra ardente. Quando fiquei sozinho, aos meus trinta e dois anos, mudei-me para a que tinha sido a alcova de meus pais, abri uma porta de passagem para a biblioteca e para viver comecei a vender o que estava sobrando, e que terminou sendo quase tudo, exceto os livros e a pianola de rolos".

quarta-feira, 17 de março de 2010

A primeira exposição a gente nunca esquece




Programando o próximo fim de semana, passeei por sites e blogs culturais e me deparei com a exposição de Andy Wahrol, que começa esse sábado na Pinacoteca, em São Paulo. Reúne 170 obras do mestre da pop art e se enquadra naquele quesito "mostras imperdíveis". E foi pensando nisso que puxei o fio da memória e cheguei à primeira exposição importante a que fui na vida. Morando em Milão já há alguns meses, fazia tempo que tentava combinar com uma amiga de ir conhecer a cidade de Lugano, na parte italiana da Suíça. Minha expectativa girava em torno de uma cidadezinha - em que a principal atração é um lago e um centro histórico super charmoso - e chocolates, muitos chocolates. Tanto que, assim que descemos do trem, o primeiro passeio foi a orla desse tal lago e o segundo foi nosso almoço. Chocolate. Sim, sou do tipo de pessoa que poderia trocar café-da-manhã, almoço, jantar e ceia por chocolate se, por um acaso do destino, uma fada bondosa retirasse com sua varinha de condão todas as calorias... voltando à vida real. Chocolate de almoço e sobremesa naquele dia em um já distante 2003 me fizeram ver a vida mais doce. E perceber, ao passar diante de uma galeria, a placa "Mostra Speciale: Egon Schiele". Eu e minha amiga entramos e ela, europeia, adorou a exposição. Eu? Eu fiquei perdidamente apaixonada! Os quadros desse jovem que morreu tuberculoso e é autor de obras-primas que retratam como ninguém o sofrimento e a sexualidade, como a pintura que ilustra esse post, me deixaram sem fôlego, sem paz, sem sentir as batidas do meu próprio coração. E essa foi apenas a primeira de outras mostras importantes que tive a oportunidade de (vi)ver: Modigliani, obras da Galleria degli Uffizi, algumas do Louvre, Matisse na Pinacoteca, acervo do MASP, Jesús Sotto, acervo do Museu Calouste Gulbekian em Lisboa e do Museu Picasso em Barcelona e a mostra do Chagall no MASP, entre outras, também me fizeram sonhar. A exposição dos trajes de ópera de Lacroix na FAAP foi puro delírio e não encontro palavras para descrever o que senti ao visitar o Museu da Moda de Paris, além do Museu da Moda de Florença. Mas nada se compara à sensação inesquecível que tive ao entrar na primeira exposição importante da minha vida. Talvez porque no fundo eu soubesse que ainda teria muita "emoção artística" pela frente. E essa mostra especial era apenas um prenúncio disso.